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# Ethics by design: como inovar a partir de valores humanos
- URL: https://www.inovacaoresponsavel.org/ethics-by-design-como-inovar-a-partir-de-valores-humanos/
- Published: 2026-10-03T00:02:45.000Z
- Updated: 2026-10-03T00:54:37.000Z
- Author: Henrique Locatelli
- Tags: Conceitos

O caráter probabilístico imprevisível e a narrativa envolvente da inteligência artificial têm despertado debates públicos em torno de ruídos e fatos sobre seus riscos e uso responsável. As soluções permeiam majoritariamente por regulação e governança pública e privada. Além de insuficientes, são ineficientes.

Primeiro porque reduzir a discussão ética em torno da tecnologia da moda apequena o escopo da responsabilidade empresarial ao inovar com outras tecnologias de fronteira. Segundo porque já se sabe há algumas décadas que tentar controlar a tecnologia quando ela já está disseminada é difícil, caro e lento (leia [aqui ](https://www.inovacaoresponsavel.org/o-que-e-inovacao-responsavel-e-por-que-e-importante-agora/)e [aqui](https://www.inovacaoresponsavel.org/desvendando-os-efeitos-nocivos-da-inovacao/)), tal como é o caso da IA.

Seja em processos de P&D ou na **adoção** de tecnologias emergentes, que configura a imensa maioria dos casos das empresas sediadas no Brasil, ética em inovação só ganha lastro decisivo se os valores humanos forem, de fato, incluídos no processo desde o início.

Essa problemática foi um dos aspectos que inspirou a criação do *Value Sensitive Design*, ou **Design Sensível a Valores**, que será definido e detalhado adiante. Além de mostrar como a organização pode se beneficiar conjugando valores éticos com demandas de negócio, o presente artigo complementa as publicações anteriores sobre os [efeitos nocivos da inovação](https://www.inovacaoresponsavel.org/desvendando-os-efeitos-nocivos-da-inovacao/) e como [inovar com inteligência artificial](https://www.inovacaoresponsavel.org/inteligencia-artificial-e-o-delicado-equilibrio-entre-valor-e-risco-para-o-negocio/).

## Um detalhe sobre a inovação tecnológica

A inovação tecnológica exige a capacidade de traduzir negócio em requisitos técnicos. Seja nos modelos de gestão de projetos tradicional, ágil ou híbrido, essa é uma das etapas mais críticas, sobretudo pela heterogeneidade de disciplinas envolvidas no processo.

Negócio enxerga a oportunidade, o movimento estratégico e a lacuna temporal. Tecnologia demanda decisões claras, regras explícitas e recursos. Por experiência do autor, afirma-se que resolver a tensão entre ideia e a realidade exequível é o que determina o sucesso ou o fracasso da inovação.

A engenharia de requisitos endereça a solução parcialmente, quebrando as aspirações negociais em partes menores. Se bem executada, a soma dos microrequisitos tecnológicos equivale aos macrorequisitos de negócio, lastreando adequadamente a mobilização de recursos em projetos, programas ou produtos.

A inteligência artificial generativa promete otimizar esse processo transformando *prompts* de negócioem *software* diretamente*.* Ainda que se possa discutir a eficácia disso, o maior problema não é técnico.

Nenhuma engenharia resolve as premissas que dão embasamento para a técnica. Uma decisão de negócio equivocada, uma estratégia frágil, um desejo enviesado, uma solução para um problema mal formulado ou uma **visão limitada da inovação** são alguns exemplos.

Para este último, define-se como limitada a inovação cujas premissas são [tecnologia e mercado](https://www.inovacaoresponsavel.org/desvendando-os-efeitos-nocivos-da-inovacao/), sem considerar os riscos reputacionais, sociais, ambientais e tampouco os aspectos humanos envolvidos no processo, em sentido amplo. Quanto mais ricos os axiomas, melhores os processos e os resultados da inovação no negócio.

## O que é Design Sensível a Valores?

Design Sensível a Valores (DSV), ou *Value Sensitive Design*, é uma prática projetual que liga valores humanos à requisitos de engenharia, desde a concepção¹. Ela convida inovadores a solucionarem criativamente os dilemas éticos da tecnologia, enriquecendo o inerte pragmatismo técnico às investidas de negócio.

A ideia surgiu na área das Ciências da Computação na Universidade de Stanford, em 1970, e evoluiu nos anos 90 sob a liderança de Batya Friedman². Preza pelo princípio de não neutralidade das atividades técnicas e pelo engajamento moral dos projetistas, a fim de compreender soluções satisfatórias às partes interessadas e afetadas da inovação³ ⁴.

Fundamenta-se em uma metodologia tripartite de investigação conceitual, empírica e técnica⁴, cada qual contendo diversos métodos para extrair informações valiosas para o processo de *design* e inovação.

- As investigações **conceituais** abrangem primeiro a identificação das partes interessadas e afetadas da tecnologia e, segundo, a definição dos valores éticos e potenciais conflitos.
- As investigações **empíricas** compreendem ir a campo para observar, entrevistar e realizar estudos para entender como as pessoas compreendem, dão importância e priorizam determinada gama de valores em situações reais.
- As investigações **técnicas** focam nas funcionalidades e atributos físicos e lógicos da tecnologia que suportam ou suprimem determinados valores. Também incluem corrigir ou projetar novos atributos conforme os achados.

![](https://storage.ghost.io/c/b0/f3/b0f3943c-6480-48ce-b87b-f65c1fd804d8/content/images/2026/10/image-5-1.png)

Três camadas da hierarquia de valores. Adaptado de Van de Poel (2013)¹.

Como parte do processo, Design Sensível a Valores possibilita a construção de uma hierarquia que liga conceitos abstratos a requisitos de *design* concretos, intermediados por normas que configuram "todo tipo de prescrições ou restrições para uma ação", segundo Van de Poel¹. Conforme o autor, um aspecto que precisa ser levado em conta ao construir a hierarquia é a relação antissimétrica entre o topo e a base. Em outras palavras, os requerimentos de *design* são concebidos tendo em vista os valores; porém os valores não são concebidos por causa dos requerimentos de *design*.

O exemplo a seguir ilustra uma aplicação prática, em que *bem-estar animal* é um valor, seguido de normas como *área de alojamento adequada*, que acompanha requisitos aderentes.

![](https://storage.ghost.io/c/b0/f3/b0f3943c-6480-48ce-b87b-f65c1fd804d8/content/images/2026/10/image-6-1-1.png)

Exemplo prático, aplicado ao valor de bem-estar animal. Adaptado de Van de Poel (2013)¹, com especificações atualizadas.

## A sobrecarga moral como vetor da inovação

Em agosto de 2026, a empresa de segurança **Flock Safety** foi assunto central da matéria do [Washington Post](https://www.washingtonpost.com/technology/2026/08/02/how-police-officers-used-vast-network-cameras-spy-their-exes/?ref=inovacaoresponsavel.org) sobre violações de privacidade em suas câmeras de vigilância por inteligência artificial, nos Estados Unidos. Segundo a reportagem, sua vasta rede de câmeras foi utilizada por policiais para perseguir mulheres sem consentimento.

Ao projetar, é comum emergirem escolhas contraditórias entre um valor ou outro. No caso da Flock Safety o valor **segurança** aparentemente suprimiu a **privacidade**, o que ilustra um exemplo clássico de sobrecarga moral (ou *moral overload*), caracterizada pela suposta impossibilidade de satisfazer duas ou mais condições simultaneamente⁵.

Quando um valor é deliberadamente sobreposto a outro, gera-se um **resíduo moral** de obrigações não atendidas. Segundo Van den Hoven, Lokhorst e Van de Poel⁵, este resíduo serve como potencial incentivo para que indivíduos e instituições impeçam esse tipo de dilema no futuro. Assim, o avanço tecnológico e as inovações que eliminam a sobrecarga moral traduzem-se, também, em progresso moral.

Em outros termos, a inovação passa a incorporar a satisfação simultânea de condições aparentemente opostas⁵, corrigindo preventivamente os "pontos cegos" de premissas discriminatórias⁶, com marcos de decisão transparentes e auditáveis tanto para as lideranças organizacionais, quanto por reguladores externos e a sociedade civil.

![](https://storage.ghost.io/c/b0/f3/b0f3943c-6480-48ce-b87b-f65c1fd804d8/content/images/2026/10/image-8-1.png)

Soluções inovadoras eliminam o resíduo moral. Adaptado de Van Den Hoven (2025)⁸.

## Conclusão

A qualidade da inovação é resultado do processo que a gera, a começar pelas premissas. Quando o *modus operandi* das organizações limita-se ao destrinchamento das funcionalidades de negócio em atributos técnicos, questões éticas e morais são assumidas conforme o sistema de valores dos projetistas⁷, que não necessariamente representam o que a sociedade aprecia, de modo mais abrangente.

Promover um ambiente de abertura para valores novos e declaradamente explícitos permite que as equipes de negócio, *design*, engenharia e desenvolvimento tecnológico resolvam criativamente o resíduo moral, abrindo mais espaço para a inovação.

Isso implica uma mudança drástica de postura dos inovadores que interpretam a ética como um freio. Pelo contrário, ela é a centelha que molda a própria tecnologia quando sistematizada desde o início do projeto. Isso vale para a **inteligência artificial, computação ubíqua, robótica, nanotecnologia, biotecnologia, *IoT***, ***blockchain***, etc.

Melhor do que tentar conter danos irreparáveis quando a inovação já iniciou sua curva de difusão, é endereçar dilemas éticos e morais de forma proativa, indo além do preenchimento ritualístico de uma matriz de riscos. É aqui que o Design Sensível a Valores tem respaldo como meio estruturado para a [Inovação Responsável](https://www.inovacaoresponsavel.org/o-que-e-inovacao-responsavel-e-por-que-e-importante-agora/).

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*\[1\] I. Van De Poel, “Translating Values into Design Requirements”, em Philosophy and Engineering: Reflections on Practice, Principles and Process, v. 15, D. P. Michelfelder, N. McCarthy, e D. E. Goldberg, Org., em Philosophy of Engineering and Technology, vol. 15\. , Dordrecht: Springer Netherlands, 2013, p. 253–266\. doi: 10.1007/978-94-007-7762-0\_20.*

*\[2\] J. van den Hoven, P. E. Vermaas, e I. van de Poel, “Design for Values: An Introduction”, em Handbook of Ethics, Values, and Technological Design: Sources, Theory, Values and Application Domains, J. van den Hoven, P. E. Vermaas, e I. van de Poel, Org., Dordrecht: Springer Netherlands, 2015, p. 1–7\. doi: 10.1007/978-94-007-6970-0\_40.*

*\[3\] B. Friedman, P. H. Kahn, A. Borning, e A. Huldtgren, “Value Sensitive Design and Information Systems”, em Early engagement and new technologies: Opening up the laboratory, v. 16, N. Doorn, D. Schuurbiers, I. Van De Poel, e M. E. Gorman, Org., em Philosophy of Engineering and Technology, vol. 16\. , Dordrecht: Springer Netherlands, 2013, p. 55–95\. doi: 10.1007/978-94-007-7844-3\_4.*

*\[4\] J. Davis e L. P. Nathan, “Value Sensitive Design: Applications, Adaptations, and Critiques”, em Handbook of Ethics, Values, and Technological Design: Sources, Theory, Values and Application Domains, J. van den Hoven, P. E. Vermaas, e I. van de Poel, Org., Dordrecht: Springer Netherlands, 2015, p. 11–40\. doi: 10.1007/978-94-007-6970-0\_3.*

*\[5\] J. Van Den Hoven, G.-J. Lokhorst, e I. Van De Poel, “Engineering and the Problem of Moral Overload”, Sci Eng Ethics, v. 18, n. 1, p. 143–155, mar. 2012, doi: 10.1007/s11948-011-9277-z.*

*\[6\] B. Friedman, D. G. Hendry, e A. Borning, “A Survey of Value Sensitive Design Methods”, Foundations and Trends® in Human–Computer Interaction, v. 11, n. 2, p. 63–125, nov. 2017, doi: 10.1561/1100000015.*

*\[7\] R. Rocco, A. Thomas, e M. Novas-Ferradás, Teaching Design For Values: Concepts, Tools & Practices. TU Delft OPEN Books, 2022\. doi: 10.34641/mg.54.*

*\[8\] The Royal Institution, Responsible innovation in a digital world - with Jeroen van den Hoven, (25 de outubro de 2025). Acesso em: 2 de outubro de 2026\. \[Vídeo online\]. Disponível em:* [*https://www.youtube.com/watch?v=QypzRK4kjXQ*](https://www.youtube.com/watch?v=QypzRK4kjXQ&ref=inovacaoresponsavel.org)

*Transparência sobre o uso de IA: a imagem de capa e os gráficos adaptados dos artigos originais foram gerados pelo Gemini. Já o texto foi inteiramente produzido por Henrique Locatelli, um humano, sem a utilização de nenhuma ferramenta de IA generativa.*

*Inovação Responsável (inovacaoresponsavel.org) © 2026 por Henrique Locatelli está licenciado com uma* [*Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional*](https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/?ref=inovacaoresponsavel.org) *(CC BY-NC 4.0)*